A obrigação de ser feliz e o Carnaval

A obrigação de ser feliz e o Carnaval

Nem bem começa o ano e o assunto no Brasil é o Carnaval. Todos correndo para se preparar para essa festa da cultura popular brasileira que atrai pessoas de todo o mundo pela beleza e alegria contagiantes.

Não é à toa que o Brasil é o país do Carnaval, porque, assim como acontece nessa festa popular, vivemos em uma sociedade que adora e vive de espetáculos de todos os níveis, onde tudo vale, tudo pode, e onde impera a ânsia pelo prazer a qualquer preço.

Nos últimos tempos, vivemos sob a égide da chamada pós-modernidade, onde, sem valores, tentamos nos encontrar em meio a uma falta generalizada, pois nos faltam limites, falta a lei, falta tempo, e, principalmente, falta perspectiva de futuro.

O que era para ser busca pelo prazer, virou dever. As pessoas se sentem na obrigação de se divertir, de sorrir, de gostar de tudo e de todo mundo, de trabalhar muito para alcançar status e prestígio social, de se manter sempre jovens, quase sempre perdendo a noção dos limites próprios e alheios. E é nessa perspectiva que também entra o Carnaval.

Talvez pelo fato de morarmos em um país tropical, com essa natureza exuberante em meio às altas temperaturas, há um reforço na idéia de que as pessoas têm a obrigação de ser feliz. Campanhas publicitárias e músicas vibrantes ajudam a criar a sensação de que é preciso ser feliz e “aproveitar”, afinal de contas é verão, é carnaval, e, além do que, é sempre depois dessa data que o Brasil volta a funcionar e as pessoas reassumem sua rotina diária.

E quando voltam para a vida cotidiana, não é de se estranhar que as coisas continuem no mesmo ritmo de uma corrida maluca. Todos competindo em seus locais de trabalho para ver quem é mais bem sucedido que o outro, quem realiza mais, quem se destaca mais, numa existência marcada pelo excesso. Excesso que também aparece no uso abusivo de remédios e drogas, e no consumo desenfreado de bens e de alimentos.

As pessoas não só perderam a noção dos limites entre o trabalho e o lazer, mas também se excedem em um e outro. É como diz uma propaganda de um aparelho de som que tem sido exibida na televisão nos últimos meses, onde o ator diz que o som toca “muuuito”. Porque hoje não basta tocar, tem que tocar muito, porque se não, aquilo não tem valor.

E é essa a mensagem veiculada em nosso meio e que assumimos de forma inconsciente, sem nos darmos conta do que estamos fazendo.

Assim, é preciso trabalhar e produzir muito, porque se não, não é trabalho; é preciso se divertir e divertir muito, pois se não, não será diversão. Parece que nunca, nada é satisfatório. Estamos sempre em falta. E, na tentativa de suprir essa falta, vamos em busca desse “muito”, para ver se conseguimos diminuir a sensação de vazio.

E dessa carreira desenfreada normalmente saímos exaustos, esgotados, ainda nos sentindo em falta com o mundo, e com as expectativas que o mundo nos coloca e que nós aceitamos, totalmente frustradas. Com o sentimento de fracasso, a sensação de vazio só aumenta, e então, em desespero, na tentativa de aplacar a depressão, recomeçamos a roda viva atrás de fortes emoções.

E assim, vemos famílias se desfazendo, laços se desestruturando, pois não há tempo para se dedicar a si mesmo, quanto mais aos outros com quem se convive no dia-a-dia. Encontramos pessoas infelizes, adoecendo e fazendo mais visitas a médicos e hospitais que à casa de seus amigos.

Vivendo dentro dessa cultura de massa, esquecemos de valores importantes como o respeito pelas nossas próprias necessidades e pelas dos outros. A mídia diz quais são as nossas necessidades e nós aceitamos.  A mídia nos diz como ser feliz e nós, sem questionarmos, seguimos atrás dos modelos propostos de felicidade, modelos estes que, normalmente, fazem nos sentir mais fracassados e deprimidos ainda, afinal de contas nem todos nós temos o porte físico necessário para termos o corpo da moda, nem todos nós dispomos do tempo e do dinheiro exigidos para realizar e adquirir os bens que, segundo eles, transformará nossas vidas “para sempre”.

O que eles não dizem é que nem que você disponha de todas essas condições favoráveis, ainda assim sua vida não será transformada para sempre, porque eles mesmos se encarregarão de, no mês seguinte, lhe vender uma nova idéia ou um novo produto que esse, sim, com certeza, irá “revolucionar” sua vida.

E assim é que a mídia nos pega. Sempre por meio de muita intensidade. O “muuito”, “para sempre”, e o “revolucionar” são só alguns exemplos disso. E quem caminha pela vida sem questionar, quando se dá conta, vê-se como mais um produto dentre tantos outros que essa tal pós-modernidade se encarrega de vender.

Produtos esses que ao invés de facilitar nossas vidas, como prometem as propagandas, nos torna prisioneiros de uma insatisfação sem fim.

Por isso, é tão importante nos recolhermos de vez em quando para refletirmos sobre quem somos, o que queremos para nós, no que acreditamos que seria realmente o melhor para nós, e sobre o que estamos fazendo com nossas vidas, ou deixando que os outros façam.

O Carnaval é um tempo de alegria e prazer, e embora nos vendam a idéia de que é tempo de “curtir muito”, precisamos lembrar que podemos escolher curti-lo ao nosso modo, que pode ser no meio da folia ou de qualquer outra forma que realmente nos traga prazer e bem-estar.

O Carnaval pode representar, ainda, uma oportunidade de se retirar do barulho e se recolher um pouco, antes de reiniciar a rotina diária que se repete ano a ano, buscando dentro de nós, aquilo que genuinamente atenda às nossas necessidades, sem qualquer obrigação de ser feliz.